As vezes o ponto de partida de uma estória é o ponto de chegada. Mergulhando no submundo paulistano, temos a estreia de uma escritora de mão cheia trazendo certas mitologias para o coração econômico brasileiro. Confira como você pode chorar sangue em plena lua cheia…


Editora: Dame BlancheLobo de Rua, de Jana P. Bianchi
Páginas: 89
Ano de publicação original: 2016

Sobre a trama:

Raul é um morador de rua, um homem invisível e desgraçado como tantos os outros. Como se sua desgraça não fosse suficiente, Raul contrai a maldição da licantropia, tornando-se um lamentável lobo de rua. Tito Agnelli não compartilha do abandono de Raul, mas conhece muito bem a sensação de ser rasgado por dentro, todos os meses, pela coisa vil que se abriga nele. Assim, compadecido com o sofrimento do recém-transformado, Tito acolhe Raul na Alcateia de São Paulo, extinta até então por falta de lobisomens residentes na Pauliceia. Depois de décadas de contaminação, Tito conhece cada detalhe da maldição que o transforma em lobisomem. Além disso, conhece também a Galeria Creta, um lugar em São Paulo onde ele e outros dos seus são bem vindos nas noites de lua.

Basta pagar o preço.


Lobo de Rua é um livro lançado recentemente que é como um prólogo estendido de todo o universo da escritora paulista Jana P. Bianchi, A Galeria Creta, que propõe brincar com os conceitos de seres mitológicos e suas conexões em pleno submundo paulistano, começando pelos seres que a escritora mais gosta: Os lobisomens. Na estória, Raul, um garoto de rua, tem sua maldição despertada nas ruas da Sé e conta com a ajuda do experiente imigrante italiano Tito, que o ajuda a conhecer todo este mundo do qual ele tem nenhum conhecimento.

Ao ler uma sinopse deste estilo, estamos condicionados a pensar que qualquer literatura fantástica (e principalmente uma que seja nacional) será infantil ou no máximo, infanto-juvenil, por causa da falta de tantas obras que tratam as mitologias e o folclore brasileiro de forma mais adulta como acontece internacionalmente. Porém, o leitor que ir com tal mentalidade será surpreendido, pois esta obra é adulta, mas no tom certo, para fisgar diversos leitores de diversas faixas etárias.

A sensibilidade com a qual a escritora narra o drama de Raul nas ruas de São Paulo é excelente, fazendo o protagonista ser carismático, bem desenvolvido e com diversas camadas de profundidade. Assim também é o mentor Tito, que a princípio parece ser aquele mestre da típica jornada do herói, entretanto, é bem mais que isso, o que abre espaço para diversas estórias que poderiam ser contadas sobre ele. Os outros personagens parecem estar ali apenas para servir de alguma forma para o andamento da trama e, para eventualmente, voltarem a este universo em livros futuros.

A escrita é bem fluída e dinâmica, com capítulos curtos e mudanças de status quo em diversos momentos. A reviravolta de seu final é coerente e não pode ser antecipada de longe, como alguns livros de autores renomados, o que traz um belo charme à trama e faz com que não seja um livro facilmente esquecido. A autora ainda precisa evoluir certos pontos na narrativa, como descrições de movimentos e dramatização, coisas que são comuns a quem está começando a escrever tramas tão profundas e complexas como esta. A leitura não irá incomodar nem o leitor mais exigente, e essa serve para bem mais do que só estabelecer um universo obscuro que é palpável, mas também provoca algumas reflexões bem-vindas.

Uma obra que acertou em cheio ao achar o seu propósito. O que mais estará vindo da Galeria Creta?

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