Clássicos duram até que as estrelas se esfriem

Quem me conhece sabe que, dependendo com qual pé eu levanto da cama, existe uma certa dúvida que permeia o meu ser: afinal de contas, seria 2001: Uma Odisseia no Espaço ou Blade Runner: O Caçador de Andróides o meu filme favorito? O fato é, que graças ao lançamento da seqüência, o filme dirigido por Ridley Scott está mais na minha mente atualmente do que o clássico de Kubrick.

Seqüência. Uma palavra, muitos sentimentos. Se de um lado havia a inevitável vontade de ver aquele universo numa sala de cinema (me perdoem os filhos da Netflix, mas filmes foram feitos pensados em cinema, não em serem vistos em smartphones) havia também o medo de se estar pondo a mão em um vespeiro. O filme Blade Runner (1982) começa com todo um background montado e termina de forma aberta. A interpretação do que foi e do que vai ser fazia parte do jogo. Aqui, não havia este luxo.

Blade Runner 2049

Era um passo arriscado. Mas, uma vez que foi tomado, foi seguido por um acerto retumbante: a escalação de Denis Villeneuve para direção. Sendo um diretor de uma assinatura forte, notadamente por causa de sua estética que brinca com o monocromatismo e com um ar opressivo e depressivo, ele era, aparentemente, o nome perfeito para seguir a estética do filme original, sem parecer uma cópia forçada.

A estratégia funcionou. Se existe um acerto absurdo em Blade Runner 2049 está no seu visual. Figurinos, Design de Produção, Fotografia e Computação Gráfica trabalham em conjunto para trazer de volta para a tela um dos mundos mais bonitos já vistos no cinema. Aliado a um afiado senso de movimentação de câmera e composição de clima, Villeneuve consegue renovar certos elementos e os fazerem ficarem ainda mais espetaculares.

Porém, tudo isso já era esperado. Ninguém seria louco de fazer uma seqüência de um clássico desse gabarito se não ficasse tecnicamente perfeito. O que assustava muitos e tirava o sono de outros, era o roteiro. Caindo nas mãos de Michael Green, que havia “cometido” atrocidades como o texto de Lanterna Verde e Alien: Covenant, mas havia também escrito Logan e Deuses Americanos. Uma carreira cheia de altos e baixos.

Blade Runner 2049

No fim, ele fez um bom trabalho. A trama gira em torno do Blade Runner K (Ryan Gosling, impecável). Após aposentar um replicante, ele acaba tropeçando em um mistério que pode trazer a tona um segredo tão grandioso que pode ser o estopim para uma grande guerra. Cabe a ele ir atrás das pistas e desvendá-las antes que Niander Wallace (Jared Leto, mostrando que ainda sabe atuar) o encontre.

Brincando com conceitos biológicos sobre a caracterização de vida, sentimentos e do próprio conceito de espécie, o filme mergulha ainda mais na mitologia dos replicantes, fazendo a já esperada e bem vinda discussão sobre esses temas. Há ainda breves momentos de discussões filosóficas, uma reviravolta de elementos do filme original trazendo conceitos bíblicos à tona e até mesmo uma brincadeira de metalinguagem sobre como era o mundo nos anos 80 e como ele é hoje. Tudo isso enriquece o texto, dando estofo ao filme.

Entretanto, e aqui vai apenas um desejo pessoal, achei que pela primeira vez em sua carreira Villeneuve caiu no erro de filmar um roteiro super escrito. Ou seja, diversas vezes coisas são explicadas por meio de flashbacks, e momentos que poderiam servir apenas como desenvolvimento de personagem acabam servindo a trama. É o mito de que nada no texto pode estar em cena por acaso. No fim, soa apenas como um menosprezo para com o expectador. Se bem que o filme original sofreu por que as pessoas não entenderam o filme… Como aconteceu com Mãe! recentemente.

Facilmente, Blade Runner 2049 vai ser lembrado pelo seu apuro técnico nas grandes premiações ano que vem. É mais uma prova de que não necessariamente uma continuação ou reboot/remake empobrecem a obra original. As vezes eles vem para dar uma nova visão do que foi feito, mas clássicos são eternos, como uma escultura em granito.

nota café expresso

bio NELSON Nascimento