Escrito por Glecem Gaia

Quando escrevo, acabo me entregando para os devaneios sobre amores, a vida, futuro e outras centenas de coisas que são terreno desconhecido para os meus pés. Mas hoje, decidi escrever sobre algo que eu conheço bem, algo que eu olho todos os dias ao acordar: gordura!

Não me lembro de nenhuma parte da minha vida na qual eu tenha me sentido magra. Minhas lembranças confusas de um passado um tanto traumatizante não ajudam no processo de resgate de memória. Minha mãe jura que eu já fui magra um dia, mas prefiro nem contar com essa parte e fico somente com “eu sempre fui gorda”.

sempre fui gorda artigo

Eu, como uma criança gorda, passei por momentos difíceis. As situações delicadas na escolinha – como quando eu fui proibida de pular corda por ser pesada demais – ou na piscina do clube, onde as crianças riam de mim porque eu não conseguia subir na borda da piscina.

Bem, eu poderia tirar da cabeça um pouco das muitas ofensas que me eram jogadas naquela época. Depois que mudei de colégio, algumas poucas coisas aconteceram. Na maior parte do tempo, era apenas eu e ninguém estava ligando muito para isso.

Os fatos escolares não me marcaram tanto como as coisas que tive que encarar na “vida real”. Algumas coisas ficaram grudadas em mim – e mesmo que eu quisesse esquecer, eu não seria capaz.

Lembro também de quando meu pai disse que odiava gente gorda. Na hora, eu achei irônico – aliás, ele tinha três filhos gordos, certo? Porém, de acordo com suas ações patéticas, aquilo era só mais um ponto para acrescentar no placar de “pior pai do mundo”.

Momentos em que tive que escutar, de pessoas aleatórias, sugestões sobre como seria bom para mim emagrecer, pois assim eu arranjaria um namorado e ficaria mais bonita.

Algumas situações não necessariamente envolviam terceiros, apenas eu chorando copiosamente por nenhuma roupa bonita caber em mim, ou por uma decepção amorosa idiota onde o carinha “especial” gostou da garota magra (super clichê!).

Muitas cenas do cotidiano ainda me afetam, como pessoas que usam a condição de “gordo” para xingamento ou a maneira como massacram em postagens nas redes sociais (só porque alguém decidiu aceitar e mostrar o seu corpo do jeito que é).

Eu sei bem tudo o que envolve a minha gordura, minha situação “gorda” de ser. Isso me leva a precipícios onde eu tenho que lutar com a humilhação, a tristeza e a indiferença.

Eu conheço bem o corpo que vejo todos os dias e todos os pensamentos que correm dentro da minha cabeça. Muitas vezes, eu penso: “Ah, não é tão mal assim, né?”, e então, visto uma roupa legal e vou trabalhar. Mas quando eu vejo o meu reflexo acidentalmente em um vidro qualquer, uma nova onda de pensamentos chega e… Bem, não vou repeti-los aqui, pois passo muito tempo tentando soterrá-los.

A rua e as pessoas me deixam em uma condição agoniante quando se tem ansiedade, baixa autoestima e gordura em um só pacote. Os pensamentos que desencadeiam da mente fértil de alguém que já está acostumado com o negativo, acabam se tornando degradantes.

Esses acúmulos de momentos, ocasiões, sensações e lembranças fizeram algo de estranho comigo. Ao mesmo tempo que me despedaçou, serviu também para construir uma redoma de pensamentos automáticos quando a depreciação começa automaticamente.

Sim. Tento e tentei dietas, – antes para ser magra, hoje é só pelo fato de não querer engordar mais ainda. Já chorei comendo, já chorei com fome e já chorei de raiva. Já tentei me aceitar completamente e já tentei emagrecer radicalmente. E tudo isso sempre teve uma exímia participação dos meus pensamentos dúbios.

Hoje, eu já não sei o que realmente quero e como esses eventos externos influenciam nos meus desejos de ser mais magra ou continuar gorda. Então, eu penso: “Talvez seja a minha mente precisando de uma boa disciplina”.

Falha a memória ao tentar relembrar quando, exatamente, a minha cabeça decidiu guerrear. É, de fato, estranho olhar para o espelho todos os dias e a cada vez pensar uma coisa diferente. Talvez o meu desejo seja de que, a cada manhã, eu possa me enxergar e me sentir bem em minha pele - e, de preferência, não mudar de opinião dois segundos depois.

E ao final desse texto, devo admitir: nem minha própria gordura eu conheço bem.

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