É muito gratificante ver obras nacionais sendo tão bem produzidas ainda mais com histórias que mereçam serem contatadas, realmente a TV brasileira na década de 80 era uma loucura, pode-se até dizer que o Brasil sempre teve uma certa peculiaridade nas suas atrações. E é muito bom poder ver por de trás dos bastidores de ícones da nossa cultura pop como a vida naquele tempo era uma coisa de outro mundo.

Cinebiografia de Arlindo Barreto, um dos intérpretes do palhaço Bozo no programa matinal homônimo da televisão brasileira durante a década de 1980. Barreto alcançou a fama graças ao personagem, apesar de jamais ser reconhecido pelas pessoas por sempre estar fantasiado. Esta frustração o levou a se envolver com drogas, chegando a utilizar cocaína, crack e levar prostitutas nos bastidores do programa.

Apesar de ser o primeiro longa do diretor Daniel Rezende, não é seu primeiro trabalho na indústria cinematográfica, ele já trabalhou na edição de Cidade de Deus (2002), indicado ao oscar inclusive, na montagem de Diário de Motocicleta (2004), Tropa de Elite (2007) e Robocop (2014). Toda essa experiência de anos trabalhando com cinema lhe rendem uma boa mão para direção, o diretor ousa com planos sequências muito bem executados, algo até que raro no cinema brasileiro, além de um ótimo controle do tom e da narrativa da obra que nunca se perde dentro dela mesma, não tendo cenas a mais ou a menos, ele acha um equilíbrio juntamente com a montagem e a edição para contar a trajetória do personagem de forma honesta e clara, com enquadramentos excepcionais que deixam a câmera exatamente aonde o espectador se sinta parte do cenário, aumentando ainda mais a imersão do filme. Sem falar na ótima direção de atores.

Falando em atores que elenco fantástico, a atuação de Vladimir Brichta (Bingo) me deixou sem palavras, o ator além de uma interpretação física muito boa, que vai muito além de simplesmente imitar o bozo, também nos entrega várias camadas do personagem como um pai preocupado, um filho que quer aprovação, um gênio do entretenimento, um drogado, etc…Ele faz dupla com a Leandra Leal (Lúcia), outra que destrói no seu papel ela convence demais como uma diretora preocupada com a sua carreira, toda rígida e centrada, mas que por outra lado tem uma admiração pelo inconsequente Bingo e ela passa essas duas facetas muito bem.

A fotografia e a direção de arte também surpreendem, com cores bem saturadas, um jogo de luzes bem montados e figurinos típicos da época, somos transportados diretamente pros anos 80 com facilidade, sem falar de toda montagem de cenários como as TV, câmera e o estúdio, tudo com um tom bem das décadas passadas e o diretor aposta em planos mais longos que só enriquecem mais a obra.

Bingo: O Rei das Manhãs pode ter uma falha aqui e outra ali, como uma montagem mais apressada em certas partes e algumas falas do roteiro meio fora de tom, mas nada que atrapalhe sua experiência com essa obra, ela ainda continua sendo engraçada na medida certa, sincera no seu drama, com atuações ótimas, uma direção muito boa e um importante retrato do que era a TV brasileiro na década de 80. Já se tornou um clássico do nosso cinema.

bio yago