Ou qual o papel da crítica de cinema


Existe uma velha teoria que permeia a internet hoje em dia que diz que hoje todo mundo é especialista em tudo. Infelizmente, até graças à redes sociais, todos temos que ter uma opinião na ponta da língua sobre todo e qualquer assunto que possa existir. A necessidade de decidir se você deve ou não curtir, compartilhar, retwittar, assinar, favoritar e afins faz com que muitas vezes nós percamos um pouco do foco quando vemos a uma obra. E qual seria o foco? Simples, meu caro amigo. Pura e simplesmente pensar sobre ela.



Tomemos como base o filme Doutor Estranho, da Marvel. ele é o sexto filme de super-herói lançado no ano (antes já haviamos visto Deadpool, Batman v Superman, X-Men Apocalipse, Guerra Civil e Esquadrão Suicida). O filme está fazendo muito dinheiro e ele é realmente muito bom. Mas ai vem aquele crítico chato de tênis verde e diz que aquele filme tão divertido é apenas regular. Em sua necessidade de tomar partido e decidir o que fazer com aquele texto, acabamos tomando atitudes extremas. Ou o crítico é um idiota e o filme espetacular ou o crítico está certo e o filme é terrível. Mas onde está a verdade nisso?

Como vocês sabem (ou não, pode ser prepotência minha achar que todo mundo aqui leu meus trabalhos anteriores) eu escrevi uma série de críticas para o Multiversonews.com. Por que eu fazia isso? Primeiramente por que eu acho que, ainda que não tenha feito cinema, assisti filmes, li textos e livros e assisti a vídeos suficientes para pelo menos saber mais de cinema do que uma grande parte da galera. Então se eu pudesse passar com meus textos um pouco disso para você, leitor, estaria fazendo um serviço interessante para a nação. Sim, eu acho que o cinema é assim tão importante. Então poder dizer que aquele filme que a primeira vista é espetacular possui partes que poderiam ser melhor trabalhadas serve para que quando alguém veja o filme depois pense “ih, olha lá! que corte estranho… isso atrapalhou o ritmo da cena… na certa que quando eu ver um film mais requintada quanto a isso saberei perceber”. Mas é preciso bom senso. Nem toda obra precisa ou quer ser perfeita (tirando as dirigidas por Stanley Kubrick, mas nem ele fez filmes perfeitos no fim das contas). Mas por que eu disse tudo isso? Simples. porque na ânsia de julgar antes de ser julgados, estamos considerando errado vários filmes. Doutor Estranho, inclusive.

Pra começo de conversa, a Marvel conseguiu criar todo um universo tão coeso que tanto os fãs quanto os não fãs entendem e curtem. Isso se deve ao tal de “fórmula marvel”. Essa estratégia da produtora de uniformizar seus longas vem sendo demonizado por algumas críticas desde que perceberam que Os Vingadores (2012) devia muito de seu tom à Homem de Ferro (2008). Nos filmes atuais da empresa há sim uma maior variedade, desde aquele que é o mas sério, Capitão América: O Soldado Invernal, até o mais engraçadão, Guardiões da Galáxia. Mesmo assim eles ainda fazem parte do mesmo universo e por isso tem que ter muita coisa em comum. Querer que a Marvel quebre isso é querer que a Marvel pare de ter um universo coeso. Eu e você ainda saberemos que é o Cavaleiro da Lua, se a Marvel fizesse um filme violento sobre ele, e a Garota Esquilo, uma comédia teen, bem como entenderiamos um filme de terror do Morbius. Mas e aquele seu coleguinha que vai com a namorada apenas procurando um pouco de diversão? Ele nem ao menos sabe quem é Stephen Strange afinal. E usando sua fórmula a Marvel o apresentou, e os memes mostram que a galera curtiu.

Outro ponto. A gente quer mesmo ver um debate filosófico profundo em um filme do Homem-Formiga por exemplo? Claro que existem casos que os roteiristas podem e devem criar algo mais complexo, se isso bate com o personagem. Foi o que Jonathan Nolan fez em Batman: O Cavaleiro das Trevas, mas nem sempre é assim. Vamos imaginar que a Marvel tivesse feito um roteiro absurdamente complexo em Doutor Estranho, por exemplo. Neil Gaiman escreveria o roteiro que seria depois retrabalhado por Charlie Kaufman. O filme já tem termos e ideias visuais complexas demais, se o roteiro passasse a linha do entendivel e virasse uma experiencia reveladora e arrebatadora, ele só ia ser um filme maluco. Claro, temos casos no cinema de quando isso deu certo, sendo Matrix o que mais me veio a mente. Mas na maioria das vezes, como no caso de 2001: Uma Odisséia no Espaço, Blade Runner: O Caçador de Andróides ou Donnie Darko oque saíram foram filmes espetaculares, mas que o expectador comum rejeitou. A Marvel adapta quadrinhos, assim como a Warner vem fazendo com a DC. Eles querem fazer bons filmes e fazer com que suas marcas sejam aceitas. Só depois quando for natural ir ao cinema ver homens de collant veremos filmes que realmente serão Obras primas. Quantos anos de sci-fi tivemos antes de O Dia em que a Terra Parou? de Westerns antes de Sete Homens e um Destino? De terror antes de O Exorcista?

A fórmula Marvel não é algo que transforma seus filmes na mesma coisa. É algo que permite que vejamos uma árvore e seu amigo guaxinim vindo para a terra ajudar um maluco que viaja entre dimensões, um cidadão que encolhe, um deus nórdico e um velho de 98 anos lutar contra um alien roxo que reunirá 6 pedras coloridas que juntas o transformam no par perfeito para a Morte em pessoa. E isso é o plano do estúdio. Eles deixaram claro 4 anos atrás… Quem sabe depois disso as coisas mudem?